Artigo

Microrganismos e Geleia Bacteriana

Microrganismos e Geleia Bacteriana

Fonte: Ana Maria Primavesi

Formação: Engª Agrônoma formada na Áustria em 1942, a primeira a afirmar que o "Solo tem Vida". Escreveu o livro "Manejo Ecológico do Solo", considerado o livro divisor de águas na compreensão da Agricultura Ec
Contato: @anamariaprimavesi
Data: 05/12/2017

O manejo dos microrganismos do solo se faz pela criação de condições favoráveis aos organismos benéficos às culturas. Sua atividade pode ser controlada pelo produto de seu trabalho, por exemplo, pela eficiência da decomposição de celulose e a formação de agregados.

Os microrganismos cujo manejo nos é possível, na prática do campo, são:

  • Os rizóbios ou bactérias moduladoras em leguminosas;
  • Os fixadores de nitrogênio, que vivem livres no solo;
  • Os decompositores de celulose e produtores de uma estrutura grumosa do solo agrícola.

Manejam-se os organismos pelo uso de matéria orgânica, adicionando-se-lhe o adubo e o calcário, isto é, aos microrganismos; pela rotação de culturas ou, no mínimo, pela variação de plantas criadas num campo, como ocorre em culturas consorciadas, intercaladas, etc., e pela proteção do solo da insolação direta, com exceção das algas. Verifica-se facilmente o resultado da atividade dos microrganismos pela nodulação das raízes, pelo crescimento rápido e sadio das plantas e pela agregação das partículas do solo, formando uma estrutura grumosa. O manejo dos microrganismos é muito fácil. O difícil é conscientizar o agricultor de sua presença.

Os microrganismos celulolíticos, especialmente Sporocythophaga e Cytophaga, normalmente ocorrem associados com fungos e amebas. Somente as bactérias mais novas têm a forma de bastonetes curvos. As mais velhas e mais distantes da celulose já não encontram condições de vida satisfatórias e encistam-se. Importante não é tanto seu número, mas sua eficiência.

Em duas placas inoculadas com duas cepas de Cytophaga, uma provém de uma cultura mal nutrida e outra de bem nutrida. Observa-se que os descendentes das bem nutridas produzem muito mais geleia bacteriana que os da mal nutridas. Poucos organismos eficientes podem produzir muito mais geleia do que muitos famintos e ineficientes.

No mesmo solo, com adubação diferente, tanto o número como a eficiência dos celulolíticos é diferente, além do efeito da associação com outros micro seres.

Os micro seres que contribuem à agregação do solo são todos heterótrofos (não produzem seu próprio alimento), necessitam de matéria orgânica como fonte de energia. Tomam-se os actinomicetos como os mais poderosos agregadores do solo, especialmente porque são os formadores mais eficazes de substâncias húmicas.

Normalmente, em zonas tropicais, a formação de húmus se restringe a lugares de maior altitude e, portanto, de temperaturas mais baixas. Mas o húmus formado nestas condições não agrega mas lixivia o solo. Nos trópicos, em terras agrícolas, a formação de húmus é praticamente impossível. Portanto, os microrganismos importantes para nós são as bactérias celulolíticas, que decompõem celulose em condições aeróbias, produzindo ácidos poliurônicos que agregam o solo. Pertencem a estas, especialmente, Cytophaga, Sporocytophaga, Cellvibrio e semelhantes ao lado dos fungos Trichoderma lignorum, Penicillium urticae, Fusarium lignorum e outros.

A “geleia bacteriana” (bacterial gum) como se chama aos ácidos poliurônicos que têm caráter coloidal, é produzida especialmente por Cytophaga e Sporocytophaga na decomposição de palha em presença de amebas. Baseia-se no fato de que a celulose, que perfaz aproximadamente 40% da palha, nada mais é do que açúcar polimerizado, ou, para dizê-lo mais simplesmente, um composto de muitas moléculas de açúcares ácidos unidos a uma estrutura complexa. Pela oxidação quebra-se os elos destas estruturas e libera-se novamente açúcar ácido, o chamado ácido urônico, que no conjunto da celulose e dos açúcares ácidos fornece finalmente os ácidos poliurônicos, que possuem o mesmo poder agregante que as substâncias húmicas, apesar de serem um produto da fase inicial da formação de húmus.