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 O preço do leite despencou. E agora?

O preço do leite despencou. E agora?

Fonte: Alexandre M. Pedroso

Formação: Consultor de Bovinos Leiteiros da Cargill Nutrição Animal
Contato: www.cargill.com
Data: 06/12/2017

Como eu já disse inúmeras vezes, sustentabilidade é um conceito que tem três pilares fundamentais: responsabilidade ambiental, responsabilidade social e responsabilidade econômica. Ou seja, para que uma empresa seja de fato sustentável ela precisa ser ambientalmente amigável, socialmente responsável e, principalmente, precisa ser lucrativa já que não existe sustentabilidade sem lucro. Nos últimos meses vimos o preço do leite literalmente despencar no Brasil, e isso, sem sombra de dúvidas, compromete a lucratividade das fazendas leiteiras. Com esse cenário, o que o produtor de leite deve fazer?

Uma das coisas que parecem óbvias diante desse cenário é cortar custos. Toda e qualquer fazenda, para ser eficiente e lucrativa, precisa controlar muito bem os seus gastos, o seu fluxo de caixa. As despesas que não têm impacto direto na produção devem ser reduzidas ao mínimo necessário para manter a estrutura funcionando. No entanto, quando se trata de custos, que são os investimentos feitos nos fatores de produção, é preciso ter muita atenção e pensar estrategicamente. Os custos devem ser controlados, mas nem sempre cortar alguns deles é o melhor caminho.

Infelizmente, cortar a comida das vacas é uma das práticas ainda largamente adotadas em nosso país quando o preço do leite cai. Não há dúvidas de que a alimentação do rebanho é o principal item de custo em sistemas intensivos de produção, especialmente os alimentos concentrados. Mas será que a melhor alternativa é reduzir a oferta de ração para as vacas com o objetivo de diminuir os gastos da fazenda?

Vamos avaliar uma situação em que um produtor de leite decide reduzir a oferta de concentrado para as vacas em lactação quando o valor que ele recebe pelo leite cai de R$ 1,40 para R$ 1,20/litro. Suas vacas produziam em média 30kg leite ao dia e consumiam 10kg de um concentrado comercial com 22%PB. Este é o Cenário 1, descrito na Tabela 1 abaixo.

 

 
 

 

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O Cenário 1 representa a situação normal da fazenda, ou seja, a dieta fornecida às vacas é a que foi formulada pelo técnico nutricionista: as vacas recebem 10kg de concentrado/ dia e produzem em média 30kg leite. O custo da comida é de R$ 16,52/vaca/dia, considerando que o concentrado custa R$ 1,19/kg. Com o preço do leite a R$ 1,20/litro, a receita que cada vaca proporciona é de R$ 36,00/ dia. Descontando-se o custo de alimentação, sobra R$ 19,48/dia (RMCA). Se considerarmos que esse produtor tem 50 vacas em lactação, a cada mês o RMCA é de R$ 29.220,00. Esse é o dinheiro que sobra para pagar os demais custos e despesas e apurar o lucro.

O Cenário 2 reflete uma situação em que o produtor decide cortar custos e reduz a oferta de ração para as vacas, passando a dar 8kg de concentrado – 2kg a menos. Nesse caso, mesmo considerando que as vacas irão consumir um pouco mais de alimentos volumosos, o custo de alimentação cai para R$ 14,53/vaca/dia. Em termos percentuais isso significa uma economia de 12%, mas será que foi um bom negócio?

Nessa situação a produção das vacas diminui, e bastante, em resposta à menor oferta de concentrado, e assim a receita apurada com o leite também diminui, de forma que o RMCA fica em R$ 16,67/vaca/dia ou R$ 25.005,20/mês. Isso representa uma redução de 14% nesse parâmetro, ou seja, o saldo é muito pior do que no cenário anterior.

Se o produtor decidir reduzir ainda mais a oferta de ração para as vacas a situação piora, conforme ilustrado no Cenário 3 da tabela. O custo de alimentação diminui, mas a RMCA diminui ainda mais, de forma que sobre muito menos dinheiro no final do mês. Ou seja, esse exemplo mostra de forma muito clara que reduzir a ração das vacas para tentar economizar dinheiro pode ser um grande “tiro no pé”. Controlar custos sempre é importante, mas é preciso focar no lucro. Se a redução no custo operacional resultar em menor lucro, o produtor perderá dinheiro.

Mas, de forma alguma isso significa que o produtor não tem saída para lidar com preços reduzidos do leite. Há muita coisa que pode ser feita na fazenda para melhorar a margem de lucro, mas tudo passa por um conceito muito importante: eficiência produtiva. Há inúmeros aspectos no dia a dia da propriedade que podem afetar significativamente a eficiência e que muitas vezes são ignorados por boa parte dos produtores de leite. Dentre estes podemos citar as perdas na armazenagem de grãos e alimentos concentrados em função de estocagem mal feita; perda de capacidade produtiva das vacas por falta de condições adequadas de conforto; falhas no manejo da alimentação, como cargas e misturas mal feitas; e baixa qualidade dos alimentos volumosos produzidos na fazenda.

Ainda há propriedades leiteiras que conseguem utilizar apenas 80% ou menos dos grãos de milho que compram para alimentar as vacas. Isso ocorre, na maioria das vezes, por armazenamento inadequado que resulta em apodrecimento e perda de parte do material. Além disso, há o risco de intoxicação das vacas pela presença de micotoxinas produzidas por fungos que se desenvolvem nos grãos em condições ruins de armazenagem. Essas toxinas causam perdas em produção de leite, bem como comprometem a reprodução das vacas. Por isso, todo alimento deve ser muito bem armazenado na fazenda para que se mantenha em condições adequadas de fornecimentos para os animais e para evitar despesas extras geradas pelas perdas.

A questão do conforto animal é de fundamental importância para o bom desempenho e eficiência do rebanho. Uma vaca leiteira sob stress calórico, por exemplo, pode perder 30% ou mais de sua capacidade produtiva, além de também ter seu desempenho reprodutivo comprometido. Qual o peso disso no bolso do produtor? Dar às vacas condições adequadas de conforto é fundamental para que possam ser eficientes.

O processo de alimentação das vacas é crítico para que os alimentos, que representam o maior custo de produção, sejam utilizados com eficiência na fazenda. É fundamental manter uma rotina rígida de controle das misturas oferecidas às vacas, de forma que a dieta colocada no cocho seja igual à que foi formulada pelo técnico nutricionista. Misturas mal feitas resultam em baixa eficiência alimentar e pior desempenho dos animais, o que compromete seriamente a lucratividade da fazenda. É importantíssimo ficar sempre muito atento a esse aspecto.

Talvez o maior problema das fazendas brasileiras seja a baixa qualidade dos alimentos volumosos, tanto as pastagens e forragens conservadas, como silagem de milho, pré-secados ou fenos. Quanto melhor a qualidade dos volumosos, menor a necessidade de fornecer concentrado para se alcançar uma determinada meta de produção, o que representa custo de alimentação menor. Os esforços investidos na produção de um alimento volumoso de alta qualidade são altamente compensadores,

Cada um dos aspectos mencionados acima poderia ser tema de um artigo completo, no entanto, o objetivo aqui foi de pontuar que cortar a ração das vacas nunca é a melhor alternativa . Via de regra, isso resulta em menor RMCA, mesmo que haja redução de custos. O segredo para se trabalhar bem em épocas de crise é buscar incessantemente a máxima eficiência em todos os processos produtivos, e certamente há muito espaço para ser mais eficiente nas fazendas de leite, independentemente do sistema e nível tecnológico adotados.